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Animações digitais, criadas a partir de imagens
videográficas. Seqüências de imagens que exploram
as zonas de fronteira entre distante/próximo, anterior/posterior,
dentro/fora, captadas a partir de deslocamentos e rotações,
promovidas pela câmera em movimento ao registrar paisagens
e sala de trabalho. Reflexos e matizes servem como ponto de partida
para animações que criam zonas de indefinição
e de interpenetração entre interno e externo, distante
e próximo.
Vôo Cego I, 1998. Animação digital. Duração:
55 segundos. Apresenta projeções de luz, nas quais
se reconhece fragmentos de uma paisagem natural e de uma sala de
trabalho, simultaneamente.
Vôo Cego II, 1998. Animação digital. Duração:
55 segundos. Duas tomadas opostas de uma paisagem rural são
condensadas em uma única projeção, compondo
uma nova realidade espacial.
Vôo Cego ocupa as zonas de trânsito entre as gradações
de orientação do corpo no espaço físico,
onde o corpo estabelece diferenças entre distante-próximo;
interno-externo; anterior-posterior. Ao deslocar-se, o corpo faz
passagens de uma dimensão a outra, atravessando pontos de
inflexão a partir dos quais percebe mudanças qualitativas
do distante ao próximo; do interno ao externo; do anterior
ao posterior.
Fundir tais passagens, com o fito de evidenciar uma zona de interpenetração
entre essas dimensões, significa interferir na estrutura
do corpo e da construção da imagem. O corpo, por
exemplo, não permite focar simultaneamente o que está muito
próximo ou muito distante, ou ver o que ficou para trás
enquanto se está indo para frente. Para visualizar a interpenetração
entre as dimensões acima citadas, é necessário,
portanto, criar dispositivos de extensão tanto do corpo
quanto de visualização destas zonas. Neste processo,
utilizou-se a câmera de vídeo para captar dimensões
concomitantes e concorrentes de um mesmo espaço (distante/próximo,
anterior/posterior) ou de espaços diferentes entre si (interno/externo).
Utilizou-se igualmente a câmera de vídeo para promover
o deslocamento de pontos de vista e a inflexão, captando
estes espaços em movimento. Posteriormente, estas tomadas
foram trabalhadas digitalmente. No computador, elas foram decompostas
e reconstruídas em uma “neorealidade” que difere
daquela construída na experiência do corpo, pois nesta
ocorre a fusão das dimensões interno-externo, distante-próximo
e anterior-posterior, que é projetada e visualizada. Apesar
de se tratar de uma mesma investigação, as duas animações
aqui apresentadas, Vôo Cego I e Vôo Cego II, se diferenciam
e são tratadas em separado.
Vôo Cego I foi construído a partir de duas captações
videográficas: uma tomada externa, paisagem, e uma tomada
interna, sala de atelier. Em ambas as captações,
a câmera foi posicionada na mão e o corpo promoveu
um movimento circular em velocidade constante, ajustando a câmera
no recurso de auto-foco. Na montagem das duas tomadas, os quadros “fora
de foco” foram reduzidos a poucos quadros, alterando-se assim
a velocidade original, mantendo-se a seqüência, e os “em
foco” foram repetidos na proporção em que os
anteriores haviam sido subtraídos, mantendo-se a duração
original. O resultado é uma aceleração no “fora
de foco” e um retardamento, ou quase congelamento do “em
foco” de cada um dos fragmentos interno e externo. O fragmento
da tomada interna foi sobreposto ao da tomada externa e, depois,
o da externa foi sobreposto ao da interna.
O desfocar as distâncias extremamente próximas cria,
a ilusão de que o olhar está prestes a penetrar nos
materiais numa esfera, onde o olho, o foco, já não
acompanha a aproximação. Essa aproximação é interrompida/acelerada
com a entrada em uma outra dimensão. O movimento rápido
da câmera sugere um olhar de passagem, bem como um ângulo
de tomada indica tratar-se de uma visão de dentro de um
veículo. Nesta passagem há movimentos de aproximação
e afastamento com perda de nitidez de foco. Transições
entre claro e escuro, reflexo e refração de luz em
movimento e alternância entre interno e externo impedem a
fixação, ou um acomodamento do olhar, reiterando
a zona de interseção entre dentro e fora, e próximo
e distante. O único elemento que se mantém constante é o
ritmo ondulado de deslocamento, que conduz o olhar.
Vôo Cego II foi construído a partir da captação
de duas tomadas externas de uma paisagem rural. Na primeira tomada,
a câmera foi colocada na mão, voltada na direção
oposta ao corpo, e o corpo promoveu um movimento unidirecional
para frente em velocidade constante, captando o espaço de
trás e promovendo pequenos movimentos de rotação
de amplitude de cerca de 40 graus em torno do mesmo eixo. A Segunda
tomada foi realizada enfocando a paisagem oposta à primeira
(filmado com os mesmos movimentos de rotação em torno
do mesmo eixo). Também aqui o foco foi ajustado no automático.
Na edição, os quadros em foco de cada tomada foram
separados dos fora de foco, obtendo-se duas seqüências.
Cada uma das duas seqüências de quadros mantinha a ordem
original de movimento. Sendo a seqüência de quadros
em foco de cada tomada menor que a fora de foco, estes quadros
foram repetidos até obter-se a mesma duração
da segunda seqüência. As sequências fora de foco
foram fundidas em uma única, assim com as em foco. Na montagem
final, estas duas foram fundidas e condensadas em uma única
animação, na qual predominam tons pastéis
e a ausência de contornos nítidos.
Em conjunto as várias superposições formam
um passeio do olhar onde a câmera mimetiza o movimento de
um ser que ora se desloca rapidamente para frente, voa, rasteja
ao nível do solo, penetra e se afasta, e ora paralisa e
fixa um olhar que dirige a atenção para o alto e
o baixo, para o perto e o longe.
Assim, essas imagens estão repletas de “ruídos” que,
se fossem nítidos, seriam imediatamente percebidos como
colagens ou superposições. Entretanto, sendo esmaecidos
e desfocados, editados e montados dessa forma, são “neorealidades” sintéticas.
Em Vôo Cego I e Vôo Cego II também é o
movimento do olhar que é abordado. Alterações
no movimento de rotação, de penetração/aproximação
e de saída/afastamento permitem experimentar passagens abruptas
de uma dimensão a outra, condensando-as.
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