Junho de 2003 Made in Brazil. Exposição de Vídeos Brasileiros. Trabalho a ser Apresentado : Vôo Cego I e Vôo Cego II. Itaúcultural




Animações digitais, criadas a partir de imagens videográficas. Seqüências de imagens que exploram as zonas de fronteira entre distante/próximo, anterior/posterior, dentro/fora, captadas a partir de deslocamentos e rotações, promovidas pela câmera em movimento ao registrar paisagens e sala de trabalho. Reflexos e matizes servem como ponto de partida para animações que criam zonas de indefinição e de interpenetração entre interno e externo, distante e próximo.

Vôo Cego I, 1998. Animação digital. Duração: 55 segundos. Apresenta projeções de luz, nas quais se reconhece fragmentos de uma paisagem natural e de uma sala de trabalho, simultaneamente.

Vôo Cego II, 1998. Animação digital. Duração: 55 segundos. Duas tomadas opostas de uma paisagem rural são condensadas em uma única projeção, compondo uma nova realidade espacial.

Vôo Cego ocupa as zonas de trânsito entre as gradações de orientação do corpo no espaço físico, onde o corpo estabelece diferenças entre distante-próximo; interno-externo; anterior-posterior. Ao deslocar-se, o corpo faz passagens de uma dimensão a outra, atravessando pontos de inflexão a partir dos quais percebe mudanças qualitativas do distante ao próximo; do interno ao externo; do anterior ao posterior.

Fundir tais passagens, com o fito de evidenciar uma zona de interpenetração entre essas dimensões, significa interferir na estrutura do corpo e da construção da imagem. O corpo, por exemplo, não permite focar simultaneamente o que está muito próximo ou muito distante, ou ver o que ficou para trás enquanto se está indo para frente. Para visualizar a interpenetração entre as dimensões acima citadas, é necessário, portanto, criar dispositivos de extensão tanto do corpo quanto de visualização destas zonas. Neste processo, utilizou-se a câmera de vídeo para captar dimensões concomitantes e concorrentes de um mesmo espaço (distante/próximo, anterior/posterior) ou de espaços diferentes entre si (interno/externo). Utilizou-se igualmente a câmera de vídeo para promover o deslocamento de pontos de vista e a inflexão, captando estes espaços em movimento. Posteriormente, estas tomadas foram trabalhadas digitalmente. No computador, elas foram decompostas e reconstruídas em uma “neorealidade” que difere daquela construída na experiência do corpo, pois nesta ocorre a fusão das dimensões interno-externo, distante-próximo e anterior-posterior, que é projetada e visualizada. Apesar de se tratar de uma mesma investigação, as duas animações aqui apresentadas, Vôo Cego I e Vôo Cego II, se diferenciam e são tratadas em separado.

Vôo Cego I foi construído a partir de duas captações videográficas: uma tomada externa, paisagem, e uma tomada interna, sala de atelier. Em ambas as captações, a câmera foi posicionada na mão e o corpo promoveu um movimento circular em velocidade constante, ajustando a câmera no recurso de auto-foco. Na montagem das duas tomadas, os quadros “fora de foco” foram reduzidos a poucos quadros, alterando-se assim a velocidade original, mantendo-se a seqüência, e os “em foco” foram repetidos na proporção em que os anteriores haviam sido subtraídos, mantendo-se a duração original. O resultado é uma aceleração no “fora de foco” e um retardamento, ou quase congelamento do “em foco” de cada um dos fragmentos interno e externo. O fragmento da tomada interna foi sobreposto ao da tomada externa e, depois, o da externa foi sobreposto ao da interna.

O desfocar as distâncias extremamente próximas cria, a ilusão de que o olhar está prestes a penetrar nos materiais numa esfera, onde o olho, o foco, já não acompanha a aproximação. Essa aproximação é interrompida/acelerada com a entrada em uma outra dimensão. O movimento rápido da câmera sugere um olhar de passagem, bem como um ângulo de tomada indica tratar-se de uma visão de dentro de um veículo. Nesta passagem há movimentos de aproximação e afastamento com perda de nitidez de foco. Transições entre claro e escuro, reflexo e refração de luz em movimento e alternância entre interno e externo impedem a fixação, ou um acomodamento do olhar, reiterando a zona de interseção entre dentro e fora, e próximo e distante. O único elemento que se mantém constante é o ritmo ondulado de deslocamento, que conduz o olhar.

Vôo Cego II foi construído a partir da captação de duas tomadas externas de uma paisagem rural. Na primeira tomada, a câmera foi colocada na mão, voltada na direção oposta ao corpo, e o corpo promoveu um movimento unidirecional para frente em velocidade constante, captando o espaço de trás e promovendo pequenos movimentos de rotação de amplitude de cerca de 40 graus em torno do mesmo eixo. A Segunda tomada foi realizada enfocando a paisagem oposta à primeira (filmado com os mesmos movimentos de rotação em torno do mesmo eixo). Também aqui o foco foi ajustado no automático.

Na edição, os quadros em foco de cada tomada foram separados dos fora de foco, obtendo-se duas seqüências. Cada uma das duas seqüências de quadros mantinha a ordem original de movimento. Sendo a seqüência de quadros em foco de cada tomada menor que a fora de foco, estes quadros foram repetidos até obter-se a mesma duração da segunda seqüência. As sequências fora de foco foram fundidas em uma única, assim com as em foco. Na montagem final, estas duas foram fundidas e condensadas em uma única animação, na qual predominam tons pastéis e a ausência de contornos nítidos.

Em conjunto as várias superposições formam um passeio do olhar onde a câmera mimetiza o movimento de um ser que ora se desloca rapidamente para frente, voa, rasteja ao nível do solo, penetra e se afasta, e ora paralisa e fixa um olhar que dirige a atenção para o alto e o baixo, para o perto e o longe.

Assim, essas imagens estão repletas de “ruídos” que, se fossem nítidos, seriam imediatamente percebidos como colagens ou superposições. Entretanto, sendo esmaecidos e desfocados, editados e montados dessa forma, são “neorealidades” sintéticas.

Em Vôo Cego I e Vôo Cego II também é o movimento do olhar que é abordado. Alterações no movimento de rotação, de penetração/aproximação e de saída/afastamento permitem experimentar passagens abruptas de uma dimensão a outra, condensando-as.

 

 

vôo cego I


vôo cego II