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Máquinas de Ver 1 visa a desconstrução do
esquema rotinizado e habitual da visão, a partir da alteração
das relações originais de binocularidade e de estereoscopia
humanas, a fim de promover um outro modo de ver e, consequentemente,
uma experiência espacial alterada.
Neste sentido, Máquinas de Ver 1 trabalha na direção
oposta à verossimilhança do real, ou seja a réplica
de um real que é fruto da experiência cotidiana. Caracteriza-se
como uma operação de extensão do olhar, através
da construção de uma binocularidade que em nada se
assemelha à humana, do registro binocular alterado de ocorrências
situadas no mundo, e de uma condensação destes em
um espaço que se apresenta como uma experiência estereoscópica
alterada [[120]].
Para a formalização do projeto, trabalhou-se em
três etapas interrelacionadas: a construção
de um dispositivo binocular diferente do humano, capaz de captar
e reter imagens em movimento; a escolha dos objetos e ambiente
a serem captados pelo dispositivo; e, por fim, a elaboração
do espaço no qual as imagens captadas seriam fundidas em
uma estereoscopia de outra natureza.
O que interessava no dispositivo binocular era captar, simultaneamente,
objetos em movimento em direções diametralmente opostas.
Desta forma seria simulada uma visão simultaneamente anterior
e posterior, isto é, a capacidade de ver objetos se aproximando
e se distanciando ao mesmo tempo a partir de dois pontos de vista:
na frente e nas costas. Com isso haveria a capacidade de estender
experiência visual humana para além dos contornos
habituais.
A segunda etapa foi dedicada à da escolha do ambiente e
dos objetos que deveriam ser gravados pelo simulador de visão,
o dispositivo binocular construído. Neste âmbito,
foram necessárias muitas experiências para se chegar
ao cenário ideal: uma estação de metrô e
o vai-e-vem dos trens e dos passageiros nas plataformas. Este cenário
permite explorar ao máximo tanto a estereoscopia como a
binocularidade "oposta". O pé direito relativamente
baixo exacerba a sensação de profundidade e agudiza
a sensação de movimentos rápidos de aproximação
e afastamento, num turbilhão de chegadas e saídas
e de passagens tão abruptas do anterior para o posterior,
que parece que a "frente" desemboca diretamente no "atrás".
Na estação de metrô os objetos/pessoas chegam
frontalmente em direção do espectador, para, em seguida,
afastarem-se na direção oposta. O ambiente da estação
tem amplitude suficiente e se espalha, de modo a oferecer um tabuleiro
vasto de coreografias entrecruzadas por onde centenas de passageiros
se movimentam em rotas imprevisíveis, e abruptamente desviam
percursos e trajetórias, interrompem a marcha, ou se chocam
com os outros. Esta configuração espacial mantém
o espectador na familiaridade: o local é conhecido, os movimentos
se dão em tempo plausível e os ângulos de perspectiva
são reconhecíveis.
Para se obter uma relação paritária entre
espaço visual (metrô) e o campo visual [[121]] do
dispositivo, assim como com o campo visual humano, que viria a
ser utilizado posteriormente na construção estereoscópica,
mantive-se a escala humana como parâmetro fixo para a captação
videográfica. Realizamos uma captação fixa
e rotacionada, o que permitiu que o visor da frente se deslocasse
na direção do de trás, enquanto o outro promovia
a rotação na direção do da frente.
Na terceira etapa construiu-se um ambiente que promove a fusão
das imagens opostas, obtidas em uma única imagem (estereoscopia).
Foram construidos dois planos de projeção ortogonal,
perpendiculares entre si, mantendo a escala 1:1. Através
deste posicionamento das telas, simulou-se o máximo de "abertura" que
a amplitude do olhar pode obter. Ambas as cenas permanecem por
inteiro no campo de visão, bordejando os limites da visão
periférica de cada olho. Com este artifício, o ponto
da percepção passa a ser o centro da base da pirâmide
imaginária que, na perspectiva clássica, é destinado à imagem.
Manteve-se, assim, o fio da meada entre estereoscopia e campo visual,
dados pelas descontinuidades naturais do aparato binocular criado,
no qual se apresenta um hiato, uma fenda espaço-temporal
que ocorre exatamente no campo de junção das duas
imagens projetadas. As passagens que os objetos fazem de um campo
de projeção a outro passam a ser superpostas ou atrasadas.
O espaço foi contruído em um movimento não
só dado pelos planos de projeção em uma ilusão
de movimento, ir e vir das pessoas e dos trens a partir de dois
pontos de vista opostos fixos, mas também pela rotação
destes, estendidos para o espaço em que o observador se
situa. A dupla perspectiva fixa cambia para uma perspectiva fluida,
abrindo-se o espaço em dinâmica, na qual o espectador
atua com o corpo. A rotação, efetuada em uma única
direção, obriga o espectador a promover um reequilibro
não só do olhar, mas de seu corpo ambientado neste
espaço construído.
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