17.02.- 06.03.2000 Máquinas de Ver I, 1999. Vídeo-instalação. Temporada de Projetos, Paço das Artes, São Paulo. Co-autoria: Rejane Cantoni.




Máquinas de Ver 1 visa a desconstrução do esquema rotinizado e habitual da visão, a partir da alteração das relações originais de binocularidade e de estereoscopia humanas, a fim de promover um outro modo de ver e, consequentemente, uma experiência espacial alterada.

Neste sentido, Máquinas de Ver 1 trabalha na direção oposta à verossimilhança do real, ou seja a réplica de um real que é fruto da experiência cotidiana. Caracteriza-se como uma operação de extensão do olhar, através da construção de uma binocularidade que em nada se assemelha à humana, do registro binocular alterado de ocorrências situadas no mundo, e de uma condensação destes em um espaço que se apresenta como uma experiência estereoscópica alterada [[120]].

Para a formalização do projeto, trabalhou-se em três etapas interrelacionadas: a construção de um dispositivo binocular diferente do humano, capaz de captar e reter imagens em movimento; a escolha dos objetos e ambiente a serem captados pelo dispositivo; e, por fim, a elaboração do espaço no qual as imagens captadas seriam fundidas em uma estereoscopia de outra natureza.

O que interessava no dispositivo binocular era captar, simultaneamente, objetos em movimento em direções diametralmente opostas. Desta forma seria simulada uma visão simultaneamente anterior e posterior, isto é, a capacidade de ver objetos se aproximando e se distanciando ao mesmo tempo a partir de dois pontos de vista: na frente e nas costas. Com isso haveria a capacidade de estender experiência visual humana para além dos contornos habituais.

A segunda etapa foi dedicada à da escolha do ambiente e dos objetos que deveriam ser gravados pelo simulador de visão, o dispositivo binocular construído. Neste âmbito, foram necessárias muitas experiências para se chegar ao cenário ideal: uma estação de metrô e o vai-e-vem dos trens e dos passageiros nas plataformas. Este cenário permite explorar ao máximo tanto a estereoscopia como a binocularidade "oposta". O pé direito relativamente baixo exacerba a sensação de profundidade e agudiza a sensação de movimentos rápidos de aproximação e afastamento, num turbilhão de chegadas e saídas e de passagens tão abruptas do anterior para o posterior, que parece que a "frente" desemboca diretamente no "atrás". Na estação de metrô os objetos/pessoas chegam frontalmente em direção do espectador, para, em seguida, afastarem-se na direção oposta. O ambiente da estação tem amplitude suficiente e se espalha, de modo a oferecer um tabuleiro vasto de coreografias entrecruzadas por onde centenas de passageiros se movimentam em rotas imprevisíveis, e abruptamente desviam percursos e trajetórias, interrompem a marcha, ou se chocam com os outros. Esta configuração espacial mantém o espectador na familiaridade: o local é conhecido, os movimentos se dão em tempo plausível e os ângulos de perspectiva são reconhecíveis.

Para se obter uma relação paritária entre espaço visual (metrô) e o campo visual [[121]] do dispositivo, assim como com o campo visual humano, que viria a ser utilizado posteriormente na construção estereoscópica, mantive-se a escala humana como parâmetro fixo para a captação videográfica. Realizamos uma captação fixa e rotacionada, o que permitiu que o visor da frente se deslocasse na direção do de trás, enquanto o outro promovia a rotação na direção do da frente.

Na terceira etapa construiu-se um ambiente que promove a fusão das imagens opostas, obtidas em uma única imagem (estereoscopia). Foram construidos dois planos de projeção ortogonal, perpendiculares entre si, mantendo a escala 1:1. Através deste posicionamento das telas, simulou-se o máximo de "abertura" que a amplitude do olhar pode obter. Ambas as cenas permanecem por inteiro no campo de visão, bordejando os limites da visão periférica de cada olho. Com este artifício, o ponto da percepção passa a ser o centro da base da pirâmide imaginária que, na perspectiva clássica, é destinado à imagem. Manteve-se, assim, o fio da meada entre estereoscopia e campo visual, dados pelas descontinuidades naturais do aparato binocular criado, no qual se apresenta um hiato, uma fenda espaço-temporal que ocorre exatamente no campo de junção das duas imagens projetadas. As passagens que os objetos fazem de um campo de projeção a outro passam a ser superpostas ou atrasadas.

O espaço foi contruído em um movimento não só dado pelos planos de projeção em uma ilusão de movimento, ir e vir das pessoas e dos trens a partir de dois pontos de vista opostos fixos, mas também pela rotação destes, estendidos para o espaço em que o observador se situa. A dupla perspectiva fixa cambia para uma perspectiva fluida, abrindo-se o espaço em dinâmica, na qual o espectador atua com o corpo. A rotação, efetuada em uma única direção, obriga o espectador a promover um reequilibro não só do olhar, mas de seu corpo ambientado neste espaço construído.

 



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