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Infobodies tem como idéia fundante um conceito oriundo
da sociobiologia, cunhado por Richard Dawkins, no livro The Selfish
Gene, de 1976. Segundo o autor, "examples of memes are tunes,
ideas, catch-phrases, clothes fashions, ways of making pots or
of building arches. Just as genes propagate themselves in the gene
pool by leaping from body to body via sperms or eggs, so memes
propagate themselves in the meme pool by leaping from brain to
brain via a process which, in the broad sense, can be called imitation.
If a scientist hears, or reads, about a good idea, he passes it
on to collegues and students. He mentions it in his articles and
his lectures. If the idea catches on, it can be said to propagate
itself, spreading from brain to brain. As my colleague N. K. Humphrey
neatly summed up in an earlier draft of this chapter (his words)...memes
should be regarded as living structures, not just metaphorically
but technically. When you plant a fertile meme in my mind, you
literally parasitize my brain, turning it into a vehicle of meme's
propagation in just the way that a virus may parasitize the genetic
mechanism of a host cell.” (DAWKINS:1976). O conceito de
memes foi utilizado na concepção de infobodies, aqui
definido como um sistema formado por sete pessoas que, juntas,
atuam como memes e capturam outros memes, presentes na cultura
e no imaginário coletivo sob forma de idéias e discursos
sobre o futuro, transformando-os, reprocessando-os e propagando-os
em uma poética que os devolve ao sistema como poema recitativo,
sonoro e visual.
Tomando como espaço de intervenção um simpósio
no qual centenas de idéias, conceitos e paradigmas sobre
o futuro seriam apresentados por mais de oitenta pessoas, entre
elas artistas, tecnólogos e cientistas [[116]], os textos
que viriam a ser apresentados foram recolhidos antecipadamente
e trabalhados suspendendo-se o texto do contexto, privilegiando-se,
assim as relações entre significantes.
Nesse processo, cada um dos sete integrantes do grupo desenvolveu
um algoritmo, filtro ou método de processamento dos textos
[[117]]. A partir dos vários métodos, os textos foram
trabalhados, recompostos e, neles se interferiu sucessivamente,
até se chegar a um formato de texto coletivo. No texto resultante
há versos compostos por frases extraídas dos textos
apresentados, reconfigurados em blocos de leitura, dotados de ritmos
e recorrências visuais, criados a partir de uma diagramação
que inclui cores e fontes variadas sem que as significações
se transformassem em non-sense [ANEXO CD infobodies].
Esse texto serviu como matriz para uma partitura sonora que seguiu
a estrutura criada visualmente, recomposta em camadas e coros de
vozes sintetizadas e uma cantada. A linha melódica cantada
foi pensada de modo a não ficar em primeiro plano e permitir
que os versos sintetizados fossem camadas do todo. Desta forma
acrescentou-se ao poema uma significação não-verbal
dotada de ritmo, intensidade e timbres variados. Este resultado
foi apresentado na última noite do seminário, devolvendo
aos participantes seus discursos reconfigurados e interrelacionados
na forma de composição sonora eletroacústica.
A proposta foi, portanto, a de uma intervenção aberta,
proveniente de uma série de processos realizados coletivamente.
Neste sentido, abria-se uma vertente para um corpo expandido, ou
seja, um pensar ampliado por outras mentes que, agindo conjuntamente,
expandem as possibilidades do projeto. Assim o objeto, a propagação
de memes, se rebateria para o próprio processo de feitura
do trabalho. Portanto, aqui, co-autoria é parte estrutural
do projeto.
Na derivada I, apresentada no Espaço Sérgio Porto,
infobodies avançou para além das fronteiras do simpósio-evento.
Dirigiu-se agora a um público geral que visita anualmente
esta mostra sobre música eletroacústica. Assim, a
forma do trabalho alterou-se, sem contudo, perder o foco sobre
os paradigmas sobre o futuro que circulam no imaginário
coletivo. No contexto social contemporâneo esses memes também
se propagam através de filmes de ficção e
documentários. Nessa derivada, as imagens visuais presentes
em alguns filmes e documentários foram capturadas, reprocessadas
e devolvidas ao ambiente. Aqui, o trabalho “imaginariza” os
discursos historicamente localizados sobre o futuro, associando-os
a imagens emblemáticas que habitam documentários
e filmes, muitos dos quais considerados clássicos da ficção
científica.
As imagens visuais não acompanharam e ilustraram o discurso
cantado, mas forneceram, elas mesmas, mensagens não-verbais.
Fragmentos escolhidos de vários filmes, cenas e fotogramas
foram então extraídos do original e remontados em
um novo filme. Galáxias, microorganismos, sistemas integrados,
viagens pelo corpo, robôs, células, vírus,
máquinas, avatares, alucinações, túneis
do tempo, nanoestruturas, vidas extintas, códigos, diagramas,
corpos sintéticos, entre outros, foram fundidos em camadas,
compondo novas imagens, hibridações entre micro-macro,
corpo-ambiente, sinapses e sistemas integrados. Montadas como uma
sucessão de múltiplos pontos de fuga, o vídeo
resulta em uma colagem quase hipertextual.
Na derivada II foi criado um ambiente audiovisual, estendendo
a dimensão visual para duas projeções simultâneas
[[118]]. A segunda projeção seria o rebatimento invertido
da primeira, deslocada sobre um eixo horizontal comum. As duas
projeções se fundem em uma zona intermediária,
no segundo terço de cada imagem projetada sobre o plano
comum, o que resulta em uma área de projeção
que gera uma ilusão de relevo de contornos indefinidos na área
central, provocando um estranhamento. A simetria resultante do
rebatimento simultâneo de imagens em um campo comum de projeção
leva o espectador a posicionar-se em um ponto central da sala,
ponto no qual o som se funde em estéreo.
Realizada no contexto de uma civilização técnica
em constante transformação, infobodies incorpora
o relativo e o transitório como dimensões de um recorte
que constantemente revê o futuro a partir de elementos da
cultura contemporânea, idéias presentes em múltiplos
discursos e depoimentos que operam visões e previsões
do futuro. Esta estrutura de trabalho em progresso contribui para
que o projeto se desdobre em derivadas. Os elementos das mais variadas
origens são reunidos e processados como memes, formando
recortes dos temores e desejos contemporâneos sobre o futuro.
Infobodies. Apresentação multimídia.
Duração: 10:11'. Uma cantora acompanha com canto
e recitativo coros de vozes sintetizadas, formando um espaço
sonoro em sincronia com a projeção de blocos do texto
cantado, presentes atrás da cantora. ItaúCultural,
São Paulo, 1999.
Infobodies, derivada I . Apresentação
multimídia. Duração: 10:11'. Projeção
de vídeo sobre o fundo de um palco no qual uma cantora acompanha
coros de vozes sintetizadas, compondo um espaço sonoro em
sincronia com a projeção. O vídeo é composto
por uma montagem de imagens de documentários científicos
e filmes de ficção científica, remontadas
em uma seqüência de múltiplos pontos de fuga
seqüenciais, que fundem imagens de galáxias a células,
células a partículas, sinapses a mecanismos de processamento
computacional, diagramas de circuito a mapas de cidade, entre outros. Espaço
Sérgio Porto, Rio de Janeiro, 2000.
Infobodies, derivada II. Duração:
10:11'. Ambiente Audiovisual. Sala em formato de cubo (4x4x4) m.
na qual há duas projeções de vídeo
sonoro sobre uma das paredes. A distribuição sonora é estereofônica.
Imagens extraídas de documentários científicos
e filmes de ficção científica são remontadas
em uma seqüência de fusões entre microcosmo e
macrocosmo, processos internos e externos ao corpo, sinapses e
processamento computacional, entre outros, compondo múltiplos
pontos de fuga seqüenciais. O segundo vídeo é a
imagem rebatida do primeiro. Deslocados sobre o mesmo eixo horizontal,
os vídeos são projetados simultaneamente sobre uma
das paredes da sala, criando-se um campo de sobreposição
imagens na área central de projeção. SESC
Pompéia, in Território Expandido III, 2001.
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