16.12.1999 - 21.01.2000 Info_grafia, 1998. Infografias.
In Zeitgenoessischer Druck in Brasilien. Kupferstichkabinett, Viena, Austria.




Série de infografias que apresenta a desconstrução de um original em diversos momentos do processamento computacional. Resultantes de erros de processamento do computador ocorridos pela subtração de memória durante a codificação de dados, as infografias resultam de uma lógica processual e de atualização que não reconfigura a imagem do modo humano. Três infografias desta série foram expostas, impressas em papel fotográfico opaco (70x50) cm cada, no Kupferstichkabinett, Viena, 2000.

Nessa obra, perturbações ocorridas no processamento de uma imagem analógica, induzidas pela sobrecarga na memória do computador, são vistas como potencial de gênese criativa da máquina. Na transposição do processamento de dados e cálculos, que compõem um processamento disfuncional da máquina, para um plano visual, vislumbra-se uma criação original do computador sem a intervenção do artista.

Para acessar as camadas de processamento nas quais a essência do “pensamento” do computador é diversa da humana, torna-se necessário perturbar a operação computacional, impedindo a codificação contínua, ordenada e pré-programada da imagem. Vários são os pontos na cadeia de processamento que podem ser atacados. Aqui, a escolha recaiu sobre a memória, um dos focos de interesse desta pesquisa.

O que se busca nessa série de infografias é transpor em imagem um sistema de “criação” diverso do humano, o da máquina. À medida que ocorre uma alteração de processamento causada pela subtração de memória, o computador começa a processar dados de forma imprevisível, incorporando uma outra forma de processamento. Ora, quanto mais o modo de operar da máquina é autonomizado, mais ela poderá funcionar de modo original e próprio. Contudo, na medida em que a máquina computacional age determinada por programas elaborados pelo homem, seu modo de processar é derivado do humano e segue variantes de sua lógica. Neste sentido, uma maneira de buscar um modo de operar diverso do humano é por meio da simulação do “enlouquecimento” da máquina [[101]]. Contudo, a máquina não enlouquece de modo humano, mas produz um “enlouquecimento” peculiar de máquina. Em muitas esferas já se pode simular no computador o comportamento humano, e ao funcionarem de modo adequado os mecanismos humanos e computacionais podem aparentar semelhança, porém estão calacados em processos diversos. É exatamente por isto que, quando ocorrem perturbações ou “erros”, revelam-se as naturezas diversas de cada um dos dois sistemas, o humano e o computacional. Se a disfunção mental humana já cria um estranhamento, como em casos de demência e perda de memória, o “erro de processamento computacional” é catapultado para um universo de disfunção “maquinal”, também estranho. Assim, esta série revela uma espécie de “disfunção ordenada” do computador, aqui resgatada e reeditada pela artista.

A partir de uma seqüência de imagens de uma paisagem ao ar livre, captadas em vídeo analógico, o computador as decompõe em elementos mínimos, informações codificadas que são atualizadas em varredura no monitor, tornando-as visualizáveis. Entretanto, com a sobrecarga da memória, o processamento da imagem original gera uma seqüência de dados que, quando atualizados na tela, não se ordenam de forma a reconfigurar a imagem original. A disfunção da máquina durante o processamento gera, portanto, novas combinações de dados, produzindo imagens imprevisíveis que já não guardam resíduo algum do referente original.

Estas infografias remetem à imagem visual de um processamento em plena ação, assemelhando-se a um fluxo de informações sendo atualizado na tela de forma desordenada, isto é, o processo de varredura para a tela não reconfigura em momento algum o original.

Além do interesse que o gênero de imagens obtidas pode despertar, esse trabalho suscita questões sobre o que é afinal um “erro” e sua relação com a criatividade, na acepção de originalidade. Uma interferência que ocorre por acaso, devido a uma descontinuidade de controle durante o processo, gerando um fator disfuncional que altera indevidamente o resultado, é um erro. Uma interferência intencional certamente não é um erro. E o que ocorre se operarmos com processadores de cálculos, nos quais há uma disfunção monitorada na forma de calcular, obtendo-se resultados imprevisíveis? Entra-se aqui num terreno onde há uma porosidade entre criatividade, erro e imprevisibilidade.

O computador é um sistema construído para processar cálculos. Quando processa cálculos de forma controlada, ou seja, com um coeficiente de erro que tende a zero, ele é um sistema previsível e, por essa razão, é utilizando em inúmeras aplicações de controle. Nenhum engenheiro e programador projeta uma máquina para operar em disfunção, a não ser um engenheiro ou programador que veja na disfunção uma potencialidade. Por outro lado, a criatividade ou originalidade é sempre fruto de uma descontinuidade no planejado e previsto pela cultura.

No contexto das artes, o erro ou a disfunção, resultantes de um processo, podem também abrir uma nova via às potencialidades do trabalho e, portanto, ter uma participação no processo criativo. A disfunção da máquina pode ser um parâmetro a ser explorado e radicalizado. Assim, o imprevisto pode atuar como parâmetro igualmente relevante na construção do trabalho. No processo de transposição de um modelo mental ao plano físico, lida-se com estes aspectos a toda hora. Cabe ao artista escolher quais dentre as disfunções, obtidas ao longo do processo, operam como um campo de potencialidades a ser explorado, alterando assim o original [[102]].

A falta de memória da máquina é capaz de produzir resultados imprevistos. Ao invés de descartá-los eles foram explorados, permitindo à máquina seguir seu processamento e ampliar o espectro de configurações disfuncionais por ela criado. Esse espectro serve como um registro, uma memória, da disfunção da memória capaz de criar projeções reordenadas segundo algum padrão estabelecido pela máquina. Os resultados nada têm de desordenados, pelo contrário, seguem uma rigidez calculada ponto a ponto pela máquina. Contudo, são de uma outra natureza de ordenação, diferente da anterior. Neste sentido, não se trata de acaso ou efeitos randômicos, mas da participação de outros critérios de ordenação produzidos pela falta de memória, um lapsus memorium que traz à vista uma outra forma de pensar-processar.