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Série de infografias que apresenta a desconstrução
de um original em diversos momentos do processamento computacional.
Resultantes de erros de processamento do computador ocorridos pela
subtração de memória durante a codificação
de dados, as infografias resultam de uma lógica processual
e de atualização que não reconfigura a imagem
do modo humano. Três infografias desta série foram
expostas, impressas em papel fotográfico opaco (70x50) cm
cada, no Kupferstichkabinett, Viena, 2000.
Nessa obra, perturbações ocorridas no processamento
de uma imagem analógica, induzidas pela sobrecarga na memória
do computador, são vistas como potencial de gênese
criativa da máquina. Na transposição do processamento
de dados e cálculos, que compõem um processamento
disfuncional da máquina, para um plano visual, vislumbra-se
uma criação original do computador sem a intervenção
do artista.
Para acessar as camadas de processamento nas quais a essência
do pensamento do computador é diversa da humana,
torna-se necessário perturbar a operação computacional,
impedindo a codificação contínua, ordenada
e pré-programada da imagem. Vários são os pontos
na cadeia de processamento que podem ser atacados. Aqui, a escolha
recaiu sobre a memória, um dos focos de interesse desta pesquisa.
O que se busca nessa série de infografias é transpor
em imagem um sistema de criação diverso
do humano, o da máquina. À medida que ocorre uma alteração
de processamento causada pela subtração de memória,
o computador começa a processar dados de forma imprevisível,
incorporando uma outra forma de processamento. Ora, quanto mais
o modo de operar da máquina é autonomizado, mais ela
poderá funcionar de modo original e próprio. Contudo,
na medida em que a máquina computacional age determinada
por programas elaborados pelo homem, seu modo de processar é
derivado do humano e segue variantes de sua lógica. Neste
sentido, uma maneira de buscar um modo de operar diverso do humano
é por meio da simulação do enlouquecimento
da máquina [[101]]. Contudo, a máquina não
enlouquece de modo humano, mas produz um enlouquecimento
peculiar de máquina. Em muitas esferas já se pode
simular no computador o comportamento humano, e ao funcionarem de
modo adequado os mecanismos humanos e computacionais podem aparentar
semelhança, porém estão calacados em processos
diversos. É exatamente por isto que, quando ocorrem perturbações
ou erros, revelam-se as naturezas diversas de cada um
dos dois sistemas, o humano e o computacional. Se a disfunção
mental humana já cria um estranhamento, como em casos de
demência e perda de memória, o erro de processamento
computacional é catapultado para um universo de disfunção
maquinal, também estranho. Assim, esta série
revela uma espécie de disfunção ordenada
do computador, aqui resgatada e reeditada pela artista.
A partir de uma seqüência de imagens de uma paisagem
ao ar livre, captadas em vídeo analógico, o computador
as decompõe em elementos mínimos, informações
codificadas que são atualizadas em varredura no monitor,
tornando-as visualizáveis. Entretanto, com a sobrecarga da
memória, o processamento da imagem original gera uma seqüência
de dados que, quando atualizados na tela, não se ordenam
de forma a reconfigurar a imagem original. A disfunção
da máquina durante o processamento gera, portanto, novas
combinações de dados, produzindo imagens imprevisíveis
que já não guardam resíduo algum do referente
original.
Estas infografias remetem à imagem visual de um processamento
em plena ação, assemelhando-se a um fluxo de informações
sendo atualizado na tela de forma desordenada, isto é, o
processo de varredura para a tela não reconfigura em momento
algum o original.
Além do interesse que o gênero de imagens obtidas
pode despertar, esse trabalho suscita questões sobre o que
é afinal um erro e sua relação
com a criatividade, na acepção de originalidade. Uma
interferência que ocorre por acaso, devido a uma descontinuidade
de controle durante o processo, gerando um fator disfuncional que
altera indevidamente o resultado, é um erro. Uma interferência
intencional certamente não é um erro. E o que ocorre
se operarmos com processadores de cálculos, nos quais há
uma disfunção monitorada na forma de calcular, obtendo-se
resultados imprevisíveis? Entra-se aqui num terreno onde
há uma porosidade entre criatividade, erro e imprevisibilidade.
O computador é um sistema construído para processar
cálculos. Quando processa cálculos de forma controlada,
ou seja, com um coeficiente de erro que tende a zero, ele é
um sistema previsível e, por essa razão, é
utilizando em inúmeras aplicações de controle.
Nenhum engenheiro e programador projeta uma máquina para
operar em disfunção, a não ser um engenheiro
ou programador que veja na disfunção uma potencialidade.
Por outro lado, a criatividade ou originalidade é sempre
fruto de uma descontinuidade no planejado e previsto pela cultura.
No contexto das artes, o erro ou a disfunção, resultantes
de um processo, podem também abrir uma nova via às
potencialidades do trabalho e, portanto, ter uma participação
no processo criativo. A disfunção da máquina
pode ser um parâmetro a ser explorado e radicalizado. Assim,
o imprevisto pode atuar como parâmetro igualmente relevante
na construção do trabalho. No processo de transposição
de um modelo mental ao plano físico, lida-se com estes aspectos
a toda hora. Cabe ao artista escolher quais dentre as disfunções,
obtidas ao longo do processo, operam como um campo de potencialidades
a ser explorado, alterando assim o original [[102]].
A falta de memória da máquina é capaz de produzir
resultados imprevistos. Ao invés de descartá-los eles
foram explorados, permitindo à máquina seguir seu
processamento e ampliar o espectro de configurações
disfuncionais por ela criado. Esse espectro serve como um registro,
uma memória, da disfunção da memória
capaz de criar projeções reordenadas segundo algum
padrão estabelecido pela máquina. Os resultados nada
têm de desordenados, pelo contrário, seguem uma rigidez
calculada ponto a ponto pela máquina. Contudo, são
de uma outra natureza de ordenação, diferente da anterior.
Neste sentido, não se trata de acaso ou efeitos randômicos,
mas da participação de outros critérios de
ordenação produzidos pela falta de memória,
um lapsus memorium que traz à vista uma outra forma de pensar-processar.
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